Meus livros, meus apegos e desapegos

Eu já falei em posts anteriores sobre o APEGO. É um grande desafio para quem quer mudar de país. No meu caso, na hora de arrumar as malas para o Canadá e resumir minha “vida” em oito malas juro que o mais difícil de desapegar (dos objetos materiais) foram os meus livros.

Sem dúvida uma das minhas grandes paixões são os livros. Desde pequena tinha uma biblioteca em casa. Meu pai era um apaixonado por livros. Minha mãe outra “traça”. Minha avó tinha uma escola em casa. Então, fui cercada de um ambiente farto de livros e referências fortes.

Vocês podem até achar engraçado, mas juro que desapeguei super fácil de roupas, sapatos (pra quê afinal tinha mais de 15 pares, hein?!). Itens de cozinha juro por Deus que foi um alívio (Aff Maria! Quanto troço!). As coisas “boas” doei pra minha cunhada, minha sogra e quem mais teve interesse na família.

Doei pra bazar de uma amiga que ia fazer cirurgia, doei pra quem vai se casar e pra quem estava se separando também. Doei pra quem engravidou. Doei móveis, enxoval, cristais, brinquedos, roupas, CD´s, DVD´s. Doei para conhecidos e desconhecidos. Para a igreja, para o NACC.

Vendi poucas coisas. Na verdade, eu não! Minha mãe e minha santa-irmã-arrumadora-quase-profissional que venderam depois da minha partida. Por que eu não tive tempo de vender nada! E ainda deixei um monte de coisas na casa da mainha. Pense!

Bom, pra mim foi uma ótima experiência (apesar de super cansativa). A propósito, recomendo pra quem pensa em se mudar de país refletir com muito carinho (antes) e se preparar psicologicamente para esta etapa – que pode extenuante. Pedir ajuda a amigos e familiares também ajuda. Muito!

Além da questão prática (separar, embalar, colocar na mala ou deixar em caixas) existe o processo decisório de dizer a cada objeto “isso fica ou vai?”; “isso eu vou precisar realmente ou não?”; “isso eu posso comprar lá ou não?”; “vale a pena levar isso e pagar taxa extra ou comprar lá?”; “isso tem algum valor emocional ou é substituível?”.

Isso pode ser um grande exercício de DESAPEGO e de definirmos, afinal, o que é ESSENCIAL para nossas vidas. Pra mim foi uma oportunidade de colocar em prática o MINIMALISMO (quem não viu o documentário “Minimalism” no Netflix recomendo muito). Segue o link do trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0Co1Iptd4p4 )

Mas… na prática a teoria é outra né, minha gente? Uma coisa é você estar consciente que “menos é mais” e das inúmeras vantagens de se ter menos objetos materiais e um estilo de vida mais leve (e blá-blá-blá).

Outra coisa é você ter que dizer adeus à sua biblioteca (ai, Jesus!!!) construída ao longo de aaanooos! Cada livro uma história, um por quê, uma experiência ou até uma suposta utilidade futura (“Meus dicionários?! Ah, não! Esses vão!”).

Mas aí tive uma grande surpresa quando cheguei à Winnipeg. A qualidade e variedade das bibliotecas públicas (em 5 min de carro temos duas)! Sessão para crianças enorme, revistas, livros, dicionários (yeah!), serviço de bases de dados, bibliotecárias preparadas, eventos.

Além disso, o incentivo à leitura na escola de Lulu é enorme. A biblioteca é bem variada e linda (com sofás, mesas de vários tipos, computadores para pesquisa). Dentro da sala, também há outros livros. Alguns são escolhidos pelos próprios alunos e outros que são escolhidos pelo professor (que vai aumentando o grau de complexidade conforme o letramento de cada aluno).

No dia a dia escolar existem várias atividades de exploração dos livros: visita semanal à biblioteca (onde escolhem livremente dois livros por semana), leitura em pares (buddy reading), leitura individual no quiet time, leitura para casa (home reading) para aprimorar o letramento.

Bianca também é a “cliente VIP” do Family Center que frequentamos. Ela ama o cantinho da leitura, pega os livros, explora, escolhe. Ama escolher os livrinhos para comprar no guia que vem da creche. E temos um cantinho 3 com mini-estantes dentro do quarto. Toda noite lemos juntas. Já tem os seus livros prediletos.

Nesse processo de exploração começamos a fortalecer ainda mais nosso amor pelos livros. Começamos a descobrir nossos autores prediletos. O de Lulu foi o Mo Willems (autor norte americano que fez parte do Sesame Street e autor dos personagens Elephant&Piggie e The Pigeon).

Já eu me apaixonei pelo Peter Reynolds. Ele é ilustrador em algumas obras. Outras ele escreve e também ilustra. É de uma sensibilidade incrível. Em um dos livros, não consegui conter as lágrimas (o Playing From the Heart). Vale a pena a leitura!

Pra vocês entenderem a simplicidade e ao mesmo tempo a profundidade da obra dele vou colocar aqui (em tradução livre) um trecho do último livro dele: Say Someting (Diga Alguma Coisa) publicado pela Orchard Books.

“O mundo precisa de sua voz. Da minha? Sim. Da sua. VÁ EM FRENTE… ela não precisa ser perfeita, desde que ela venha de seu coração.

Você não precisa falar alto. Palavras poderosas podem ser um suspiro.

Você pode dizer alguma coisa de tantas maneiras… Com palavras, com ações, com criatividade.

Se você vir alguém solitário… DIGA ALGUMA COISA… apenas estando lá junto delas.

Se você vir um quadro em branco… DIGA ALGUMA COISA com o seu pincel.

Se você vir um lote de terra vazio… DIGA ALGUMA COISA plantando uma semente e vendo ela desabrochar.

Se você vir alguém sendo machucado… DIGA ALGUMA COISA sendo corajoso. Ei! Pare!

Se você vir alguma coisa bonita… DIGA ALGUMA COISA com um poema.

Se você teve uma ideia brilhante… DIGA ALGUMA COISA. Com confiança. Eureka! […]

Algumas vezes você vai dizer alguma coisa e ninguém estará ouvindo. Mas continue falando o que está em seu coração. E você irá encontrar alguém que vai escutar.

Mantenha-se falando e você poderá se surpreender em encontrar todo um mundo novo escutando. […]

Então, quando você estiver pronto: DIGA ALGUMA COISA!”

Continuo minhas descobertas com outros autores como a Brené Brown (livro Dare to Lead) que conheci num Netflix sobre coragem (também fale a pena ver o especial dela The Call to Courage https://www.youtube.com/watch?v=gr-WvA7uFDQ ).

Também comecei a leitura de um outro livro por exercício do curso de criatividade que estou fazendo com o Murilo Gun. Tinha que ler algo que tinha algum preconceito (nesse caso, new age). Aí segui a indicação da minha professora de ioga e comprei o Rise Sister Rise da Rebecca Campbell. E tenho que admitir: estou amando!

Pelo jeito, os livros continuarão a ser uma grande paixão para mim. Para minhas meninas também. Quanto ao apego… Esse tenho beeem menos (bom, um passo foi me render ao Kindle e me desapegar do livro de papel).

Hoje percebo que o mais importante não são os livros em si. Mas o que eles me INSPIRAM a pensar, sentir, fazer, falar. Que eles me ajudem a dizer ALGUMA COISA que toque a vida de vocês. Que a palavra – e a transformação que ela traz – seja o nosso maior patrimônio. E não os objetos (os livros, inclusive) que passam ou que as traças corroem.

Chêro!

A Grama do Vizinho é Sempre Mais Verde

Esse ditado popular (também encontrado em inglês como “the grass is always greener on the other side of the hill”) reflete o sentimento das pessoas que possuem INSATISFAÇÃO CRÔNICA.

Mas existe diferença entre a INSATISFAÇÃO CRÔNICA e a simples INSATISFAÇÃO. Pra mim, a insatisfação crônica é doentia, baseada na comparação neurótica com tudo e com todos. Nesse caldeirão entram o corpo, o status, a posição social, a profissão, o país onde o outro vive.

Por outro lado, existe a INSATISFAÇÃO saudável que gera MOVIMENTO e MUDANÇA. Se eu estou insatisfeito com algo que me incomoda e utilizo isso como um combustível para mudar a insatisfação pode ser positiva.

Uma experiência curiosa que tive aqui no Canadá (sobretudo no inverno) foi quando me perguntavam: “Mas o que trouxe você para aqui?!”. Algumas vezes ficava sub-entendido: “Por que você resolveu sair de um país tropical e vir para esse lugar tão gelado?”

Primeiro, estou experimentando coisas novas. Nada é absoluto ou definitivo. Estou me permitindo olhar em perspectiva para o que eu tinha – e para aquilo que me deixava insatisfeita. Me permitindo refletir sobre o que realmente quero para minha vida pessoal e profissional.

Segundo, quando as pessoas daqui me perguntam isso percebo que por trás está aquela imagem de “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. É inegável a beleza natural e o clima quentinho do Brasil! Mas nesse discurso, em geral, se vê apenas um cartão postal do país. O lado bom. O lado ruim quase nunca é visto.

E, afinal, o que EU via de ruim no Brasil? Nossa, gente! Tantas coisas… Questões conjunturais, econômicas, culturais, políticas… Mas também questões cotidianas – na escola das meninas, na vizinhança, no trabalho… Era um conjunto de “grandes” e “pequenas” coisas que me incomodavam.

Pra ficar mais claro vou citar um primeiro ponto: A VIOLÊNCIA URBANA. E, minha gente, olhe que eu era daquelas teimosas que andava de bicicleta no bairro, que saía de carro sozinha com as meninas pra (quase) todo lugar. De dia e de noite.

Buscando mais qualidade de vida – dentro de Recife – nós fizemos um investimento (alto) num apartamento no Poço da Panela. Um dos melhores bairros da cidade: bucólico, histórico, prédios baixos, arborizado, excelentes serviços.

Pois alguns meses depois de investirmos, literalmente, tudo o que tínhamos na vida começou uma onda de assaltos no bairro. Na rua da frente, na escola do bairro, na portaria do nosso prédio (nesse último foi com um corretor… o ladrão levou o carro dele e assaltou os clientes que iriam olhar um apartamento. Pense num dia de “sorte” da gota).

Na rua da frente os assaltos eram dignos de filme. Um grupo de malandros armados abordando os motoristas dos carros (antes de entrarem na garagem dos condomínios) no início da noite. Gravações das câmaras de segurança circularam no Whatsapp. Depois disso, segurança armada 24h rateada pelos 3 condomínios.

Assaltos na frente da escola às 11h30 da manhã! Avôs indo buscar os netos na escola e pumba: arma na cara! Na escola das meninas colocaram um segurança em cada portão – com arma e colete à prova de balas. Pense aí!! Sem contar os casos da minha família – prima que teve carro levado da frente do prédio em plena luz do dia, tia que levou bala perdida no meio da tarde indo pra missa. Em Recife, tá? Só pra esclarecer…

Ah… Mas tem uma história clássica de um assalto que eu sofri que vale a pena contar. A situação seria cômica se não fosse trágica de tão ridículo o horário e local… Curiosos?? Vamos lá!

Estava eu passando 3 dias num hotel em Boa Viagem pra me recuperar da visita que recebi do MEC – pra avaliação do curso de Hotelaria que estava coordenando à época. Estava completamente afônica e após consulta com otorrino ela disse: estresse! Recomendação: repouso vocal.

No último dia de hospedagem resolvi fazer uma caminhada na praia. Não levei nada, exceto um pouco de dinheiro, carteira do plano de saúde e de motorista. Advinha por quê? Por medo de assalto. Na minha cabeça, o trajeto era meio perigoso – embora fosse umas 7:00 da manhã.

Pois bem… depois de uma caminhada, resolvi sentar e tomar uma água de côco. Na hora de pagar, o vendedor não tinha troco. Resolvi tomar outra água “pra completar”. Então, quando eu estava lá, de olhos fechados sentindo a brisa do mar sou despertada por um “ei, moça!!”

Quando abro os olhos, um rapaz numa bicicleta “perguntando” sobre meu celular, dinheiro. Eu passei alguns segundos pra processar que estava sendo assaltada. Sério. Falei que não tinha nada. Abri todos os bolsos da bermuda conforme ele pediu. Foi então que ele pediu as minhas alianças.

Só nessa hora, quando levantei o olhar para entregar as alianças, foi que percebi que ele estava apontando uma arma pra mim. Consegui manter a calma e segui as instruções de não ficar olhando pra ele, não ir atrás e permanecer ali mais um pouco.

A sensação de ter sido feita de idiota foi grande… Um monte de gente pra lá e pra cá caminhando e aquele cara me abordar… Que lugar pra ser assaltada, meu Deus? Na beira da praia tomando água de côco!!! PQP!

Bom, depois de uns minutos – e algumas respirações profundas – o barraqueiro veio me falar que estava acontecendo alguns assaltos na área. Eu não era a primeira. Que os assaltantes sabem até a hora melhor – antes das 8h quando começam a circular os guardas.

Pra fechar com chave de ouro, encontrei com uma dupla de policiais na saída do hotel. Eu fui conversar com eles falando sobre o assalto. Depois de todo o relato, eles justificaram que nem bicicleta tinham – e que todos os assaltantes estavam usando bike.

No final a policial olha pra mim e diz: “me desculpe…”. Gente do céu, eu não sabia se ficava com pena dela – que não tinha a menor condição de trabalho decente – ou me sentia mais idiota ainda.

Uma segunda questão que me incomodava profundamente nos últimos tempos era a banalização da CORRUPÇÃO. E aqui eu não estou falando apenas de política. Mas aquela corrupção-nossa-de-cada-dia. Aquela presente em muitas organizações. Presente no nosso discurso do “jeitinho brasileiro”.

Eu mesma escutei: “professora, a senhora é tão ingênua…” (ingênua aquela prima de idiota, conhece?). Prefiro não entrar em detalhes, por questões éticas, mas garanto que ouvi isso mais de uma vez. Em uma das vezes eu fiquei com tanta raiva que adoeci.

Vou ficar só nestes dois aspectos: violência urbana e corrupção. Mas, infelizmente, eu teria outros calos pra relatar. Mas o que eu quero deixar de reflexão para vocês é que existe uma linha muito tênue entre INSATISFAÇÃO CRÔNICA e a “simples” INSATISFAÇÃO.

No meu caso, acredito que sentia uma insatisfação saudável. Eram coisas que feriam minha essência, meus valores. Que me fizeram refletir: “Será que o problema sou EU? Será que sou eu que estou vendo as coisas de maneira torta? Ou as coisas aqui é que estão de cabeça pra baixo?”

Aí eu tomei aquela vitamina “T” (de Terapia, né, Roberta?). Vitamina, aliás, que recomendo a todos que quiserem ter uma vida mais autêntica e equilibrada. E que serve pra qualquer caso de insatisfação (crônica ou não).

Mas, se você já está minimamente resolvido psicologicamente e sua insatisfação é do tipo “normal” se pergunte: será que não está na hora de TOMAR CORAGEM pra mudar o que me incomoda? Será que não está na hora de repensar, reavaliar sua vida pessoal ou sua carreira?

Será que você não deve se dar uma chance de recomeçar independente da avaliação e julgamento dos outros? No meu caso, muita gente me questionou (abertamente ou não): “mas o quê?! Funcionária pública federal há 10 anos, com carreira acadêmica encaminhada, apartamento próprio – num bairro bom – e agora fica aí ‘inventando moda’?”

Pra muita gente eu posso “ter inventado moda”. Paciência. Aprendi que não posso controlar o que OS OUTROS pensam. Mas EU posso controlar o que EU penso ou decido fazer com a minha vida.

Muita gente insinuou que não adiantaria mudar de país que eu continuaria insatisfeita. Aí é que entra a diferença entre a insatisfação crônica ou a simples insatisfação, sacou? No primeiro caso, TUDO do OUTRO é melhor, sempre. A grama do vizinho SEMPRE vai ser mais verde.

Mas, pessoalmente, eu acho que sou do segundo tipo: aquela insatisfeita com a mesmice, com a acomodação de “é assim mesmo” ou “aqui sempre foi assim”.

Se eu não me identifico profundamente com um lugar ou se fere a minha essência, sinceramente, acho que neste caso EU É QUE TENHO QUE ME MUDAR. Como já diria outro ditado popular: os incomodados que se mudem né, não? 😉

Eu envergo, mas não quebro!

Fonte: https://www.arqblog.com.br/curiosidades-na-arquitetura/bambu-o-aco-do-seculo-21/

Como a arte imita a vida (ou a vida inspira a arte), né? Pois foi pensando nas inspirações vindas da MÚSICA que vou escrever um post por semana pra vcs baseado na seleção da playlist que criei no Sptotify batizada de TOMA CORAGEM (entra lá e confere!).

Essa semana a música escolhida foi ENVERGO MAS NÃO QUEBRO do Lenine. Todo bom pernambucano se emociona com Leão do Norte e acha Recife a capital do mundo, né? Pois, pra mim, Lenine e seus compositores parceiros expressam muito mais do que esse amor bairrista pernambuquês.

Vamos à letra?

“Se por acaso pareço
Que agora já não padeço
Um mal pedaço na vida

Saiba que minha alegria
Não é normal todavia
Com a dor é dividida

Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em um sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mas volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibrio e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambú-taquara
Eu envergo mas não quebro

Não é só felicidade
Que tem fim na realidade
A tristeza também tem

Tudo acaba, se inicia
Temporal e calmaria
Noite e dia, vai e vem

Quando é mara é maré
E quando já não dá pé
Não me revolto nem queixo

E tal qual um barco solto
Salto do alto mar revolto
Volto firme pro meu eixo

E em noite assim como esta
Eu cantando numa festa
Ergo o meu copo e celebro

Os bons momentos da vida
E nos maus tempos da lida
Eu envergo mas não quebro

Em outras palavras, Lenine canta a tão famosa atualmente: a RESILIÊNCIA (a capacidade de voltar ao seu estado normal depois de uma “pancada”). Mas tem um detalhe: ela só se constrói quando a gente se expõe às ventanias da vida.

Outra questão que ele levanta é que nada é permanente. A gente não deveria achar que a felicidade é algo constante, perene e inabalável. Na verdade, estamos TODOS no mesmo barco desse eterno equilíbrio e desiquilíbrio. Não se iludam. Mesmo quem parece sempre estar feliz, tem seus maus momentos também.

Que a gente não ache que a vida são só sorrisos e selfies no Instagram. Muita gente tem a impressão de que o OUTRO é que é feliz, EU é que sou o lascado. Mas, minha gente… Ninguém posta a dor de barriga, de cabeça, a TPM.

Ninguém posta o ataque histérico, a raiva da gota com alguma mau comportamento do filho. O sono da “moléstia” pelo acordar do filho pequeno (ou maiorzinho também), da luta da adaptação emocional dos filhos – a um novo país, a uma nova escola, a uma nova cidade.

Ninguém posta as dúvidas e conflitos da vida profissional e pessoal (salvo algumas exceções). Mas, no fundo, todos nós somos HUMANOS, somos IMPERFEITOS. Então, ao invés de idealizarmos a perfeição (que só existe na nossa cabeça) que tal reconhecermos nossas imperfeições – e as dos outros também?

Que todos nós tenhamos sabedoria para exercitar a ACEITAÇÃO DA VIDA COMO ELA É. E isto não é sinônimo de CONFORMISMO. É diferente. Aceitação é acolher. Acolher é abraçar. Abraçar é reconhecer que aquilo existe. E, no passo seguinte, respirar e dizer: eu aceito, mas não me ENTREGO!

Em outras palavras, é aceitar os ventos e as tempestades – sabendo que são momentos duros e difíceis e que exigirão muito de nós. Mas que também são passageiros e não eternos. Que tenhamos consciência que todo momento de desafio é também oportunidade de CRESCIMENTO.

Agora se a gente ficar só se lamentando da vida, se comparando aos outros, achando que nossa vida é sem sorte – e o outro é que é sortudo – aí lascou! O que acontece é que a gente muitas vezes não sabe “da missa um terço” das dores e sacrifícios que os outros passam ou passaram…

Agora se você quer usar seus sofrimentos para seu CRESCIMENTO tem que ter outra postura de vida, outra forma de pensar, outro mindset. Tem que dizer aos ventos e tempestades: “venha, mas você não vai me quebrar, vai me fortalecer!”

Porque como diria Lenine

“É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambú-taquara
Eu envergo mas não quebro

Agora vai lá na música “Envergo mas não quebro” e escuta (faixa 43)!
É de repetir o dia todo, viu? 😉

Chêro!

Adaptação a Mudanças

A natureza se adapta a cada estação do ano. E nós? Temos coragem pra mudar?

Como é lindo o Canadá! Como tudo parece perfeito, né? É… Mas, nem tudo são flores. Muita gente não toca na ferida da fase da ADAPTAÇÃO fazendo tudo parecer apenas um lindo sonho canadense. Mas existem muitos desafios no início.

Adaptação a um novo país, a um novo estilo de vida. A um novo idioma (ou sotaque), às rotas de ônibus, às novas regras de dirigir (uma doidice à parte!), ao supermercado você mais gosta, à escola (ou escolas) dos filhos, aos novos vizinhos, ao clima. É uma lista grande…

E nesse novo contexto toda IDEALIZAÇÃO do país dos sonhos e o APEGO ao que se tinha podem ser grandes armadilhas. Quando a gente idealiza demais a gente cria uma série de expectativas (geralmente altas demais…). Vou começar com um exemplo simples: a neve.

Você pode idealizar aquela neve linda, branquinha, formando aquela paisagem de filme. E ela é linda mesmo. E deve ser apreciada como um presente da natureza. Mas, minha gente, no dia a dia, depois de 1 mês vendo neve aquela branquidão já não surpreende. E você começa a ver o outro lado da moeda.

“Eita que neve chata da gota!”, “Putz grila, será que é hoje que eu vou atolar o carro na neve?”, “Ai, Senhor, aqui dentro de casa tá tão quentinho! Lá vou eu colocar casacão, duas camadas de roupa, uma tuia de acessórios e encher Bianca de roupa de frio pra ir buscar Lulu na escola!”

E assim a gente vai vivendo esse período inicial: entre expectativas e a realidade nua e cria. E quanto tempo seria essa adaptação? Embora seja muito relativo, eu diria que seriam os 3 ou 4 primeiros meses. Aos 6 meses eu já estava me sentindo mais em casa. Rotina mais em ordem (minha e das meninas), casa montada, carro na garagem, carteira de motorista definitiva (yeah!).

Outra experiência super marcante pra mim nessa fase de adaptação foi a escolinha de Bianca. Assim que cheguei estava doida para encontrar uma creche para ela (pela socialização, pelo inglês, pela rotina e, cá pra nós, pra eu voltar a ter mais tempo e rotina pra mim também). Quem nunca torceu pra o filho ou a filha começar na escola pra voltar a ter mais tempo pra si que atire a primeira pedra!

Sabia que seria particular, ok. Eu já havia encontrado a escola ideal (olha aí a doida se iludindo novamente… ah, coitada!). Mas não imaginei que as vagas seriam tão escassas! A que eu tinha visitado o site (desdo o Brasil!), enviado e-mail e na esquina da nossa rua… só lista de espera 🙁 Pense numa frustração da gota! Aí você lembra da sua amiga Viviane que dizia: “a expectativa é a mãe da merda!” (SALAZAR, 2018 😉

Felizmente, encontrei outra creche, também Montessoriana, bem renomada, um pouco acima do preço médio (ok, ok pra quem pagava um carro zero todo ano à escola no Brasil, tava no lucro). Pra piorar as coisas precisava de carro pra ir e vir pra creche. Detalhe: o carro era alugado e a carteira de motorista só tinha 3 meses de validade.

E eu pensava: “dirijo no Brasil desde os 18 anos, ora!”, “só tive duas colisões na minha vida inteira de motorista!”; “eu vou conseguir a definitiva aqui facinho, facinho#sqn . Ninguém me avisou antes que conseguir a carteira definitiva canadense “de primeira” era difícil. Eu consegui de segunda, tá? (tem gente que tenta 3, 4, 5 vezes inclusive canadenses). Mas nunca, nunca pensei que isso seria uma barreira ou dificuldade pra mim. Mas foi.

Mas fechando os parênteses sobre a resenha da carteira de motorista… já era outubro e estava esfriando. A escolinha de Bianca funcionava apenas das 9h às 11h30 (parcas duas horas e meia). De ônibus ia ficar inviável.

E aí já começa outra adaptação né, queridos… Adeus ao esquema escola das 7h às 11h45 que eu tinha no Brasil, com opção de pagar o almoço extra quando precisasse pegá-la às 13h. “Já era, querida!!”, eu pensava…

Mas eu, a louca do “preciso-de-rotina-preciso-de-escola-pra-Bianca”, TINHA QUE dar um jeito! Tinha que estudar pra tirar a carteira definitiva, aprender aquelas regras doidas daqui. Contar com a sorte de conseguir data no agendamento das provas. Aff Maria!

Pra piorar a situação, depois de 2 meses de escola Bianca começou a chorar muito. A mudar de comportamento. Mesmo com toda conversa e psicologia positiva do mundo ela estava muito resistente em ir pra escola. Ao invés de melhorar, só piorava. Até que ficou insustentável – pra mim e pra ela – e com quase 3 meses de escola resolvemos que seria melhor dar um tempo. Outra idealização, outra frustração.

Mas o que ela precisava? Apenas TEMPO para a adaptação. Eu estava no MEU tempo e não no dela. Eu via a frustração dela em chegar toda serelepe pra conversar com os amigos no jardim da escolinha, toda simpática, se apresentava em português, eles olhavam desconfiados e saíam. Apenas uma ou duas crianças e as professoras brincavam com ela.

Mas aí, no tempo DELA (3 meses depois sem ir pra escola), saiu com a seguinte: “mãe, eu acho que agora eu sei por que eu não estou falando inglês como Lulu. É porque eu não estou indo pra escola, né?” Foi quando pedi indicações de creche a Robyn, coordenadora do Family Center que frequentamos. E fomos juntas, em meados de março, visitar uma outra nursery .

Ela se apaixonou de cara! Brincou, gostou do espaço, das professoras. E eu também me senti super acolhida. Resultado: na semana seguinte ela começou feliz da vida na outra escolinha!

O que eu aprendi com isso? Que cada pessoa é um mundo. Cada um deve respeitar o SEU ritmo interno nesse processo de mudança, de adaptação. Meu ritmo é um, de Bianca outro, do meu marido outro, de Luciana outro. E como é fácil a gente querer impor o NOSSO ritmo ao outro, né?

Lembrei-me muito da análise da minha massoterapeuta (especializada em ayverdica), a Ângela Amoras, que me dizia: “Jú, você é ‘vata’. Você é cheia de fogo, adora mudança, movimento. Mas precisa entender que quem é ‘Kapha ‘ precisa de segurança, de estabilidade, se incomoda com mudança”.

Hoje, com 8 meses no Canadá, olho pra trás e vejo que se eu tivesse aceitado com mais naturalidade que os 3 primeiros meses eram mesmo difíceis teria sofrido menos. Reconheci que deveria voltar a exercitar mais a “aceitação” (na filosofia da yoga pode significar a entrega, a humildade, o desapego ou a renúncia).

E nas minhas reflexões percebi que outro componente que dificultava, talvez de forma inconsciente, este processo de adaptação e mudança de vida é o meu APEGO. O carro, por exemplo. Eu era apegada ao carro. Não aos status de ter um carro, mas à liberdade e à autonomia de ir e vir na hora que eu quisesse, sem depender de ninguém, na chuva, no frio.

A verdade é que todos somos apegados – em maior ou menor intensidade – às pessoas, às nossas rotinas, aos nossos hábitos, aos nossos princípios, à nossa cultura, ao nosso país, à nossa profissão (e aos status e reconhecimento social que temos a partir dela). Temos apego a inúmeras coisas!!

Vou (quase) encerrando este post com um trecho do Osho sobre o apego:
“Todas as nossas misérias e sofrimentos não são nada mais do que apego. Toda a nossa ignorância e escuridão é uma estranha combinação de mil e um apegos. Nós estamos apegados a coisas que serão levadas no momento da morte, ou mesmo, talvez, antes. Você pode estar muito apegado a dinheiro, mas você pode ir à bancarrota amanhã. Você pode estar muito apegado a seu poder e posição, mas eles são como bolhas de sabão. Hoje eles estão aqui; amanhã eles não deixarão nem um traço. (…)

Todas as nossas posições, todos os nossos poderes, nosso dinheiro, nosso prestígio, respeitabilidade são todos bolhas de sabão. Não fique apegado a bolhas de sabão; senão, você estará em contínua miséria e agonia. Essas bolhas de sabão não se importam por você estar apegado a elas. Elas continuam estourando e desaparecendo no ar e deixando-o para trás com o coração ferido, com um fracasso, com uma profunda destruição de seu ego. Elas o deixam triste, amargo, irritado, frustrado. Elas transformam sua vida num inferno.

Compreender que a vida é feita da mesma matéria que os sonhos é a essência do caminho. Desapegue-se: viva no mundo, mas não seja do mundo. Viva no mundo, mas não permita que o mundo viva dentro de você. Lembre-se que ele é um belo sonho, porque tudo está mudando e desaparecendo.”

Eu, pessoalmente, acredito que uma boa dose de DESAPEGO pode nos ajudar a ter uma vida mais leve e nos ajudar a abraçar o novo. Que possamos abraçar e acolher mais as INCERTEZAS, as DÚVIDAS e assim sermos ADAPTÁVEIS como a natureza.

Que acolhamos com mais naturalidade o frio, as tristezas, a solidão da vida. Mas que ela seja a semente da transformação. Que tenhamos certeza que depois de todo inverno virá a primavera – com suas flores renascendo lindamente. Que o verão iluminará tudo depois. Mas que o outono irá chegar com as despedidas das folhas, com seu ventinho gelado.

Que possamos acolher a vida como ela é: cheia de ciclos, de altos e baixos, que se renovam a cada nova estação 🙂 Basta TOMAR CORAGEM e seguir sempre em frente!

Por que começar um blog?

Tudo começou na vontade de fazer algo intelectual e não ficar só na minha vida doméstica aqui no Canadá. Pra quem me conhece, de verdade, sabe que estudar, ler e escrever faz parte da minha natureza. E isso estava me fazendo falta…

Conversando com meu marido ele foi direto no seu conselho: olha, o primeiro post, o primeiro vídeo, o primeiro site de qualquer pessoa nunca sai PERFEITO! Ele foi logo na minha ferida: o perfeccionismo. Sabia que se eu ficasse idealizando muito não ia sair do papel 🙂

Resolvi começar a escrever no Instagram que já era algo pronto, familiar (pra que eu vou inventar moda, hein?). Mas aí uma prima diz “estou adorando os seus posts: por que você não faz um blog?” e outra amiga diz “estou adorando sua fase blogueirinha!”.

Então, TOMEI CORAGEM e fui conversar com um amigo publicitário – o Rodolfo – que tenho certeza Deus colocou no meu caminho! De uma conversa de fim de tarde enquanto nossas filhas brincavam ele foi me dando uma consultoria gratuita – coisa de amigo mesmo, viu?

Com sua experiência foi me ouvindo e depois fazendo aquelas perguntas certeiras, precisas. Foi cruzando e alinhavando o que eu já estava fazendo de modo intuitivo, espontâneo. Foi me fazendo refletir sobre o que eu estava escrevendo.

Foi aí que chegamos à conclusão que aquilo que eu vinha escrevendo no Instagram até então era sobre mudança, coragem para mudar, mudança de vida, de país, de prioridades… Daí chegamos ao TOMA CORAGEM.

Daí fui lembrando da palestra que assisti no Netflix da “Brené Brown – the call to courage” (que recomendo muito!). Comprei então o último livro dela no Kindle – Dare to Lead. Assisti aos dois TED´s dela. E pensei: tá aí uma coisa que todos precisamos na vida: CORAGEM!

Pois é… NADA, NADA na vida acontece “por acaso”. Tudo é uma combinação de experiências vividas, daquilo que está no seu repertório e que conseguimos misturar, usando a “combinatividade” (“combinação + criatividade” que aprendi com o Murilo Gun no curso on-line de Reaprendizagem Criativa).

Se você também estiver atento, presente, observando, refletindo, conversando e usando seu repertório certamente novos insights e ideias vão surgir.

E o que, afinal, eu quero com esse blog? Eu quero poder tocar o coração das pessoas, criar uma conexão, inspirar a mudança. Quero misturar doses de café, música e palavras recheadas de bom humor, autenticidade, leveza e inteligência.

Que ao compartilhar e contar um pouco das minhas experiências pessoais possamos criar (ou reforçar) a nossa amizade, de forma autêntica e genuína. Que possamos, juntos, olhar a vida, encher o peito de ar e tomar coragem para mudar. Hoje, amanhã e sempre.

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